segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Ética em David Hume

   A questão moral no empirismo inglês radical

   O mais radical dos empiristas britânicos, David Hume, a despeito disso, não foi capaz de levar as ideias de seus conterrâneos as últimas consequências, como se esperaria de um radical. Ousado, astuto e brilhante como todos os grandes homens de ciência e filosofia ao longo da História do Pensamento, foi também, como muitos desses, incompreendido pelo seus contemporâneos quando aos 28 anos desponta nos círculos intelectuais da monarquia inglesa com o seu revolucionário Tratado Sobre o Entendimento Humano. Uma obra de difícil compreensão na época, pelo estilo e conteúdo, mas que graças aos esforços do próprio Hume tornando-a mais compreensível em escritos complementares subsequentes mais palatáveis ao seu público e graças também à constante retomada da filosofia empirista como um todo por filósofos e estudantes ao longo dos anos, foi pouco a pouco consagrando-se como um clássico do Pensamento garantindo a David Hume um lugar no panteão da Filosofia Ocidental.
 
Mas se Hume chocou e ainda hoje surpreende o estudante quando, por exemplo, este pela primeira vez entra em contato com suas reflexões sobre a causalidade, fazendo-o experimentar aquele tipo de sensação de surpresa e deslumbramento que só algumas reflexões filosóficas são capazes de proporcionar, quando esse percebe que não há nenhuma garantia lógica de que o Sol nascerá novamente amanhã, enfim, se Hume foi capaz desse tipo de coisa no campo da epistemologia, onde reside seu radicalismo, no campo da moral Hume foi mais brando e conservador, procurando adequar o seu pensamento à uma moral perfeitamente aceita em seu tempo e ainda hoje. Contudo, isso não quer dizer que o filosofo escocês não deu também grandes contribuições para as reflexões morais, pelo contrário, seu pensamento nesse sentido vem a ser uma das bases do Utilitarismo.

   Partindo de suas concepções básicas norteadoras de toda a sua obra, que nos diz ser o conhecimento produto de impressões e ideias, rejeitando a razão como fonte de conhecimento e por consequência o racionalismo que vigorava dominantemente do outro lado do Canal da Mancha, Hume busca conciliar o seu pensamento com a moral historicamente admitida e vigente no seu tempo. E apesar de o seu pensamento levar a conclusões que negam a possibilidade do conhecimento metafísico e por consequência o conhecimento de Deus e do Eu, agentes sempre ligados as reflexões morais até então, o filósofo não extrai daí uma moral nova. Temos uma nova abordagem e novas reflexões acerca da moral, mas que não tem como consequência uma concepção muito divergente do que se praticava na filosofia do comportamento social em sua época.

   Assim, se para Hume os nossos conceitos formam-se em nós a partir do hábito, com a ideia de moral não é diferente. São nossas experiências como indivíduos e da sociedade como um todo ao longo dos anos que vão criando as ideias do que é proveitoso e do que é desagradável, das ações que são virtuosas, por que trazem consequências positivas e das ações viciosas que só causam mais problemas. As ações não tem um valor moral em si mesmas, mas são aquilo que elas revelam na experiência que aos poucos vão se consolidando em nossas mentes como ideias que depois com a razão, instrumento de julgamento e avaliação, vão sendo classificadas como boas ou más.

   A moral, portanto, existe como uma ideia em nossa mente tal qual qualquer outra ideia, formando-se a partir do acumulo de impressões que a razão vai organizando. E a partir da constatação de quais dessas impressões são prazerosas ou dolorosas, úteis e inúteis, vão se consolidando os princípios morais. Essa é a linha que adota Hume no Livro III do Tratado Sobre o Entendimento Humano, para demonstrar sua concepção de como a ética é formada na mente humana, partindo das reflexões que desenvolve no Livro I da mesma obra, onde trata do entendimento. Entretanto, para compreender a moral no pensamento do filósofo temos que levar em conta ainda a sua concepção sobre as paixões, o tema do Livro II do Tratado.
   Paixões aqui entendidas como vontades, aquilo que ansiamos, que desejamos, que sentimos falta e temos ímpetos de buscar. Essas, como motivações das nossas ações, nos fazem mover-nos e experimentar o mundo, ao experimentar o mundo o conhecemos. E a partir das experiências acumuladas entra em ação a razão que separará tudo por categorias, classificará, emprestará valor as nossas atitudes, num processo a posteriori. E daí temos a concepção moral de Hume. Das nossas ações, aquelas que forem aprovadas pela sociedade e aquelas que observarmos serem proveitosas para nós serão consideradas boas e o contrário será mau, dito de outra maneira, aquela ação que motivada por uma paixão qualquer se conectar no tempo em alguma coisa útil para mim ou para as pessoas próximas, amigos, parentes, sociedade enfim, será com a força do hábito adotada e passará a ser aceita e repetida, e aqui percebemos a ligação do pensamento humeano ao Utilitarismo, como daqui podemos extrair a tese que defende nas duas primeiras seções do Livro III do Tratado. Pois não é a razão que motiva as ações morais, são as paixões, a razão é só uma ferramenta do entendimento, onde são as benesses que o senso comum associa a determinadas ações ao longo do tempo, ou seja, a utilidade que antropologicamente de deduz de determinados comportamentos o que se consolidará como a moralidade de um povo ou de uma época.
 
   Dito isso, podemos agora nos concentrar em uma outra questão ética importante, e que sempre inspirou os filósofos, aquela que versa sobre a liberdade e a necessidade. Na Sessão VIII da obra Investigação Sobre o Entendimento Humano, Hume trata da questão buscando demonstrar, como um verdadeiro conciliador, o quanto liberdade e necessidade podem coexistir harmoniosamente e em perfeita sintonia com a sua epistemologia. O filósofo parece estar ciente de que sua filosofia era perigosa para as tradições morais e religiosas e demonstra considerar algo censurável abdicar de qualquer conclusão por causa desse tipo de risco. Entretanto, ao longo do seu discurso percebemos que Hume de uma forma um tanto moderada encontra soluções menos polêmicas a essa questão, assim como para a sua ética como um todo, deixando o radicalismo moral para seus sucessores.               Quanto a questão da necessidade Hume entende que há um determinismo geral em tudo, ele evita atribuir isso a Deus, o que seria totalmente incoerente com o seu pensamento, mas ele não descarta uma força natural necessária motivadora dos fenômenos da natureza e responsável pelo comportamento dos homens, chamando atenção para o fato de que em diversas épocas e em diversos lugares diferentes os homens tem comportamentos semelhantes, paixões análogas, que para ele são indícios perfeitamente observáveis através da experiência de que existe algo indefinido agindo, algo necessário. Mesmo concebendo ser somente o hábito o que cria em nós as noções de causa e efeito, Hume acha perfeitamente razoável que as impressões que temos sobre a realidade permitam-nos afirmar sem contradizer seu pensamento de que há uma força intrínseca e inexorável responsável pelas coisas serem e se comportarem tal como o são e fazem.

   Mas se existe essa necessidade onde ficaria a liberdade? Hume admite uma necessidade geral difundida nos mais diversos fenômenos da existência, mas não uma necessidade absoluta. Há na natureza uma necessidade que justamente existe para nos possibilitar agir a partir de nossas escolhas, a vontade. A vontade existe, está aí, não escolhemos ter ou não ter vontade, mas a partir do momento que uma vontade surge, uma paixão, uma fome, uma raiva, temos a escolha para agir ou não a partir do que ela determina. Diante de uma ofensa grave, vários sentimentos serão despertos numa pessoa, e esta terá vontade de retribuir seu agressor, contudo ela poderá escolher não agir por algum motivo, poderá escolher agir depois numa vingança, poderá retribuir com uma nova ofensa, partir para a agressão, matar seu oponente. Aqui para Hume reside a liberdade. E dessa forma o filósofo escocês pretende demonstrar a perfeita compatibilidade entre necessidade e liberdade.
 
Contudo, vemos que dificilmente se chega a essa noção de necessidade sem nos ocorrer a ideia de Deus, e isso era ainda mais evidente no tempo de Hume quando inúmeras e milenares teorias morais ligavam a noção de necessidade a vontade de Deus, conectando-o de uma forma ou de outra as mais diversas explicações sobre o problema do bem e do mal. Mas Hume aqui não se deixa seduzir por essa solução, evitando veementemente se aproximar da metafísica. A felicidade e o bem-estar provocado por uma ação é que determinará em alguma medida se ela é boa ou má. Refletir sobre interesses opostos em buscas de conclusões do que é melhor para mim e para os outros é que constituirá a ética, e para Hume é assim que é, essa é uma necessidade natural humana, a experiência comprova que é dessa forma que as coisas funcionam. Desse modo, especulações quaisquer que sejam a respeito de Deus devem ser abandonadas pois são totalmente infrutíferas, pois trata-se de um tema demasiadamente complexo para a mente humana e que não está em nem um lugar da experiência. O filósofo, para Hume, deve se ocupar de questões cotidianas, essas sim perfeitamente ao alcance dos seus sentidos e do seu intelecto.

   Hume cria um sistema filosófico que relega a razão para um segundo plano, dando a ela um papel coadjuvante, quase de figurante, no espetáculo do entendimento humano. Um espetáculo em que não há lugar para Deus, para o Eu e nem para nada que nossos cinco sentidos não possam vivenciar. E nesses aspecto ele foi um dos filósofos mais ousados de todos os tempos, um iconoclasta e uma grande influência sem dúvida para muitos outros não só pelas suas ideias mas também por sua atitude de contestar alguns dos conceitos mais arraigadas nas tradições filosóficas e mesmo do senso comum, e é aqui que reside o seu radicalismo, seu fascínio e é por isso que será sempre lembrado e estudado. Porém, como vimos, apesar da originalidade de seu pensamento moral, ele não tem, nem de perto, o mesmo poder de destruição, digamos assim, das suas concepções epistemológicas. É uma ética que não rompe com a história da moral de forma significativa, a não ser talvez por sua base filosófica, e que é perfeitamente aceitável do ponto de vista dos interesses econômicos, pois se o que é útil é o bom, não é muito complicado de se adequar uma moral assim quando o contexto é o de uma monarquia protestante que está inventando a máquina a vapor, a indústria e o capitalismo. 

Os Americanos

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