terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Diferenças e semelhanças entre Aristóteles e John Locke

Uma comparação entre Aristóteles e John Locke a partir do que diz o primeiro no livro III da sua obra Sobre a Alma e do que diz o segundo no livro I de sua obra Ensaio Sobre o Entendimento Humano
   
   A premissa básica do Empirismo nos diz que o conhecimento origina-se a partir das experiências sensíveis. O contato com o mundo real, experimentado através dos sentidos, é a base do entendimento. Assim, uma comparação entre as perspectivas de Aristóteles e John Locke de como se dá para os dois essa relação entre conhecer e sentir, é não só uma possibilidade de compreender melhor o Empirismo e a sua origem como corrente de pensamento, como também uma forma de viver uma experiência intelectual que vai ao encontro dessa premissa básica.

   Fazer uma relação entre o pensamento de Aristóteles e John Locke é uma experiência que ao ser colocada na perspectiva do próprio Empirismo pode ser usada como metáfora ao que os dois grandes filósofos propunham em seus escritos. Pois que, a partir mesmo de uma correlação ao que está exposto nos dois livros aqui analisados, temos que no Empirismo a concepção de que as impressões primeiras ao serem posteriormente trabalhadas pela razão vão se transformando pouco a pouco de sensações em conceitos rudimentares, e esses conceitos rudimentares por sua vez num processo intelectual próprio da alma humana como diria Aristóteles, vão ganhando contornos mais definidos, transformando-se em conceitos elaborados, transformam-se na mente no conhecimento filosófico propriamente dito. A partir disso cabe aqui dizer que antes de uma experiência mais aprofundada, antes dessa elaboração intelectual, a partir de primeiras impressões a sensação que se tem é a de que John Locke e Aristóteles não teriam muito em comum.
   Entretanto, quando esse primeiro conhecimento, essa primeira sensação, vai criando forma conceitual e é acrescido de novas experiências intelectuais no sentido de um aprofundamento maior na obra dos dois filósofos tem-se então um acúmulo de informação que permite de forma lógica, argumentar, fazer abstrações, concatenar juízos, aristotelicamente falando, de modo a concluir que o pensamento de John Locke e Aristóteles estão intimamente ligados e do ponto de vista psicológico e da epistemologia estão aparentados. E só ao se debruçar sobre essas obras e vivenciar a experiência de buscar o seu entendimento é que podemos chegar a tal conclusão. De forma alguma poderíamos ter uma ideia sobre isso sem tal atitude, para fazer aqui uma referência ao que defende o empirista inglês no primeiro capítulo do Ensaio.

   Dito de uma outra forma, os dois pensadores, separados pelo nascimento em cerca de 2000 anos, sendo dois representantes de períodos totalmente diferentes da aventura humana, com toda a Idade Média entre esses períodos, não deviam ter muita coisa em comum: essa é uma sensação proveniente de certas experiências intelectuais, filosoficamente pouco profundas. Pois, outras experiências tais como a aquela que partindo para análises comparativas tenta encontrar paralelos entre o primeiro livro do Ensaio Sobre o Entendimento Humano do inglês John Locke e o terceiro livro da obra Sobre a Alma do estagirita Aristóteles, nos levam a perceber o quanto o pensamento do clássico filósofo grego da Antiguidade influenciou e está presente na visão do inglês da Idade Moderna.
Tais percepções vindas de um mergulho conceitual mais profundo e as conclusões já um pouco aqui apresentadas, ficam mais evidentes depois da leitura das obras de John Locke e Aristóteles, leitura que é aqui apresentada com uma síntese do Livro I do Ensaio Sobre o Entendimento Humano e do Livro III Sobre a Alma, precedida de algumas considerações a respeito da influência e da permanência da filosofia do grego sobre a do filósofo britânico que acrescentam ainda mais dados a tese da semelhança entre os dois bem como completam de forma conclusiva o que até aqui já foi exposto.

Aristóteles - Livro III - Sobre a Alma

Em sua obra Sobre a Alma, Aristóteles procura trazer uma definição sobre a alma, o que ela significa para o homem e os demais seres vivos e sua importância e relação para a percepção e entendimento da realidade. Para o filósofo a alma é um princípio inerente a todos os seres orgânicos e a instância do ser responsável por suas atividades, é a alma o que anima, da movimento aos seres vivos, constituindo-se para ele no ato primeiro de um ente orgânico. No livro III da obra, Aristóteles irá refletir profundamente sobre a importância dos sentidos para o entendimento, fazendo uma diferenciação da alma humana em relação a alma dos demais seres vivos pelo fato dessa possuir a capacidade racional, sendo que no homem ela tem a função de prover a conservação e a nutrição do corpo e da espécie como um todo, e aqui ela se assemelha a de qualquer ser vivo; tem a função de sentir, através dos cinco sentidos externos e pelos internos que são a fantasia, a memória e o sentido comum; e tem também a função intelectual, através dos juízos, da abstração e da argumentação.

   Ele afirma que a primeira fonte do conhecimento humano é a experiência sensitiva, que além da visão, tato, olfato, audição e paladar, compõe-se de tudo o que podemos vivenciar na mente, nossas recordações, aquilo que imaginamos e fantasiamos, bem como o que ele chama de sentido comum, que é a capacidade de se dar conta das sensações, sentir que sentimos, ao mesmo tempo que é a capacidade de sentir as diversas relações do mundo externo, capacidade que não está presente em nenhum dos cinco sentidos físicos, como o tamanho, a forma, o movimento e assim por diante. Essas compõe para Aristóteles as experiências que nos permitem formar o entendimento, possibilitando a inteligência ter acesso a matéria prima que permite ao homem a formação das ideias universais. Essas ideias universais que para Platão eram inatas, Aristóteles diz serem frutos de uma das funções da alma que é a abstração, um processo intelectual que, depois do contato com diversas experiências com coisas particulares, pode formar na mente conceitos universais. 

   Vemos que em Aristóteles todos os conhecimentos são portanto significativos. O conhecimento dos conceitos universais tem uma importância maior, são mais puros e verdadeiros, no entanto eles só existem graças a toda uma gama de outros conhecimentos menos puros e que são incapazes de revelar uma verdade completa, apenas aspectos desta, mas que nem por isso devem ser descartados ou rejeitados, pelo contrário, é o contato com as suas características particulares que permite ao homem a abstração e a formação racional de ideias universais. Assim, o conhecimento estaria organizando em graus, que começam sempre pela sensação, passando pela percepção, imaginação, memória, raciocínio e a intuição, o conhecimento mais puro e direto da realidade. Assim, todos os conhecimentos são importantes, pois é através da soma de todos eles, graças a contribuição de cada um, que nossa mente é capaz de chegar a uma verdade que condiga com a realidade, que unifique a potência conhecer com o ato conhecimento.

John Locke - Livro I - Ensaio Sobre o Entendimento Humano

   
   No primeiro livro do Ensaio Sobre o Entendimento Humano, a clássica obra de John Locke, que tem como título Nem os Princípios Nem as Ideias São Inatas, o filósofo como o próprio título sugere, argumenta em defesa de sua tese de que não é possível que os seres humanos venham ao mundo com algum tipo de conceito naturalmente pronto em suas mentes, assim como não é possível que exista quaisquer princípios éticos inatos. Deus, por exemplo, era tido em seu tempo como uma ideia inata, especialmente pelo racionalismo cartesiano muito influente então. Locke contra isso vai argumentar que se tal preceito fosse verdade todos os povos de todas as épocas teriam noções de Deus muito parecidas, fato que a experiência comprova não ser verdade. As diferentes religiões tem ideias diferentes sobre Deus. Existem religiões politeístas, umas até admitindo vícios e paixões em seus deuses, coisas que soam bastante estranhas para a concepção cristã, por exemplo. Existem ainda os ateus para contrariar tal conceito. Uma ideia inata não pode ser tão contraditória e diversa na mente das diversas culturas, segundo o empirista.

   Locke entende a importância da cultura na formação do comportamento dos diferentes povos, e se mostra contrário à ideia de que existiriam povos inferiores a outros. Para ele um nativo americano poderia muito bem, se tivesse acesso a uma educação adequada, ser tão culto como qualquer europeu letrado. E essa educação, que é muito diferente entre as diferentes culturas, é que determina os gostos, as atitudes, as preferências, as escolhas do homem, nunca jamais, uma ideia inata. Essa educação são experiências, mais ou menos organizadas, dentro de uma cultura e que vão pouco a pouco moldando o intelecto dos indivíduos. Contudo, além dessas experiências coletivas e herdadas entre as gerações, existem aquelas especificas que se dão na vida de cada pessoa de forma particular, e que vão junto com as outras emprestando ao indivíduo a noção de mundo que ele carregará durante a vida, e que vão desde ideias complexas como as de Deus ou da guerra, por exemplo, às noções cotidianas de quente e freio, amargo e doce, preto e branco.

      Um outro argumento importante trazido pelo empirista britânico é aquele em que apresenta a sua crença na bondade de Deus, que criou o mundo da melhor forma para que a humanidade pudesse desenvolver o seu intelecto da forma mais adequada e justa possível. Se houvessem ideias inatas como explicar os diferentes níveis de desenvolvimento encontrados sobre a terra, com povos vivendo vidas difíceis enquanto outros, como os europeus, constantemente descobrindo novas maneiras de tornar a vida mais fácil. Para Locke são as diferentes circunstâncias em que se encontram cada cultura, que lhe impõem diferentes desafios, diferentes experiências portanto, que fazem com que cada uma se desenvolva dessa ou daquela forma. E da mesma forma acontece com os indivíduos, cidadãos de uma mesma cidade, de uma mesma família, que tem níveis muito diferentes de compreensão, habilidades diferentes, gostos e atitudes diversas, são questões presentes no indivíduo e que vão se manifestando na vida de cada qual dadas as diferentes circunstâncias e experiências por que passam os seres humanos de acordo com suas propensões e sensibilidades como indivíduos, jamais por causa de ideias inatas, por que se assim o fossem, veríamos comportamentos muito mais aparentados entre os diferentes povos e em cada homem.

Considerações

   Fazendo um paralelo entre os dois filósofos depois de analisarmos os dois capítulos das obras citadas, podemos concluir que os dois compartilham uma visão muito semelhante do ponto de vista da origem do conhecimento e que pode ser resumida na celebre analogia da tabula rasa. Para ambos o ser humano nasce, como uma folha em branco, como um pedaço de papel que nada contém e é preciso uma ação vinda de fora, uma experiência para que aquele papel receba alguma informação, que algo seja escrito nessa folha virgem. 
   Para John Locke as ideias, os conceitos abstratos, a ética, Deus, o ser, nada disso pode estar já no homem antes que esse, estando no mundo, viva as experiências necessárias para que o seu entendimento acumule informações e adquira as habilidades necessárias para que esses e outros conceitos racionais universais formem-se na mente e permitam por sua vez promover ainda outras experiências para então se consolidar como cultura e serem daí passados de geração em geração como ideias aceitas ou até passiveis de contestação. Assim, seu pensamento está perfeitamente em acordo com a visão Aristotélica, pois para ambos, aquilo que carregamos em nossas mentes é sempre uma construção histórica, ou que herdamos dada a evolução da sociedade e da coletividade, por meio da educação e das trocas culturais, ou que vamos em nossa existência sentindo e experienciando de forma particular, de modo a consolidar saberes, gostos, comportamentos e atitudes. 

   Essas diversas experiências possíveis são absorvidas pelo homem de diferentes formas e a partir de diferentes faculdades de maneira que cada sensação e forma de sentir nos dá acesso a algum aspecto da realidade ou do ser. Notamos então que da mesma forma que o pensamento de Aristóteles é uma reação as ideias de Platão, Locke se propõe a refutar o pensamento de René Descartes. E ainda, da mesma forma que Platão e Descartes, cada um a seu modo, não viam valor no conhecimento oriundo da experiência sensível por defenderem que somente um conhecimento puramente intelectual era capaz de encontrar a verdade, Aristóteles e Locke se opõe aos seus contemporâneos de maneira análoga entendendo que o conhecimento se organiza através de graus, e que em cada grau existe alguma verdade, graus que partem das sensações e vão até as ideias. 

   Podemos notar então que a continuidade das escolas de pensamento se dá não só por posturas idênticas diante da realidade, como o privilégio da razão ou o privilégio dos sentidos como fonte de conhecimento, por exemplo, mas também por uma continuidade de conceitos, premissas, bases e pensamentos. Pois, se aqui temos de um lado o Racionalismo representado por Platão e René Descartes, que atribuem a razão a única fonte de conhecimento verdadeiro, operando por si sem o auxílio da experiência, controlando a própria experiência sensível, por outro lado temos o Empirismo de Locke e Aristóteles, que veem como fonte primeira do conhecimento os sentidos, que vão ser os responsáveis por munir a razão com ideias, controlando assim o que estará trabalhando a razão. 
   A experiência é assim para os dois filósofos a porta de entrada do conhecimento que existe em nossa alma. Conforme o tipo de tratamento que recebe, se o tratamento dos sentidos, da memória, da reflexão, da imaginação, do intelecto, da abstração, da intuição, enfim, esse conhecimento se tornará mais refinado, mais nítido, mais puro, mais verdadeiro. O conhecimento em geral, tal como a experiência de estudar o Empirismo, John Locke e Aristóteles como na alusão inicial aqui feita, vai pouco a pouco, conforme vai atravessando etapas cognitivas, evoluindo para uma versão mais completa, complexa e precisa. Tornando-se mais abrangente e mais competente para que crie no indivíduo a capacidade de ser alguém que além de ter a capacidade de ser enriquecido cognitivamente pelas suas experiências individuais e coletivas, possa também ser um agente, um intelecto ativo, na construção da cultura e vindo a tornar-se também responsável por deixar como herança às novas gerações os saberes que fazem da história humana um fenômeno dinâmico, rico e complexo. E por fim, penso que ainda podemos concluir que a ligação empirista entre os dois filósofos é tal que se John Locke tradicionalmente é considerado o pai do Empirismo, não podemos deixar de notar que ele o é por manter em suas ideias muito do que a dois milênios atrás já dizia Aristóteles, de modo que sendo John Locke o pai não me parece estar cometendo nenhum engano aquele que afirme que Aristóteles é o avô do Empirismo.




Almeida Júnior - Moça lendo em Itu (Óleo sobre tela/1892)

Os Americanos

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