quarta-feira, 1 de junho de 2016

O Brazil na era dos fundamentalismos

Cilada para um nação

   Cresci vendo na televisão notícias sobre o fundamentalismo entre os muçulmanos. Depois, estudando ciências sociais tive outra ideia sobre o significado do termo, que se tornou mais abrangente e vi então que em nossa sociedade aqui e ali também encontramos grupos fundamentalistas. Até essa época tinha um certo sentimento em relação a esses grupos radicais, pelo que via na TV e lia nos livros, via no Brazil um país privilegiado, que apesar da enorme gama de desafios quanto a sua civilização, estava longe de se constituir em uma país de fundamentalismos, tínhamos já uma certa desenvoltura intelectual e um espírito de liberdade que não permitiriam que qualquer coisa parecida ganhasse uma dimensão tão séria quanto no oriente próximo. Nosso destino era um futuro no mínimo mais próspero e de uma cultura protuberante e relevante no mundo, nada parecia dar indícios de que o país retrocederia neste sentido.

   Contudo, de forma bastante rápida e surpreendente o país descambou de uma nação promissora para uma nação de vergonhosos retrocessos e entre tantos que vemos dia-a-dia em todos os cantos temos essa questão que no país hoje é muito forte, desconfortavelmente forte, que é a questão do fundamentalismo.
   O Brasil virou uma país de fundamentalistas! A maior parte da classe média e praticamente toda a classe pensante e cultural do país abraçou o fundamentalismo de uma maneira radical ou está tendendo seriamente a isso, e só não temos uma guerra civil no país por que não é o interesse do capital internacional, por que se o fosse todas as condições necessárias para uma carnificina estão postas, basta um incidente qualquer que sirva de estopim e uma interpretação exaltada do fato, seguida de um convite às massas para o revide.

   O Brasil que sempre fez feio em todos os índices educacionais internacionais mas que mantinha uma certa força, união e esperança de um futuro melhor, tem se prestado ao que chamo de um moonwalk tosco, que já falei aqui, e se consolida agora como uma nação dividida entre grupos fundamentalistas. Ou seja, mais burrice que isso, só uma guerra. O País atingiu o limite, não dá pra ser mais estúpido do que é, mais que isso é violência generalizada.

Os fundamentalistas são aqueles que julgam que encontraram a verdade, que são os detentores dela e que todos os que compartilham da mesma visão que a sua são seus aliados e todos aqueles que destoam dela são seus inimigos.

   Com um fundamentalista não tem conversa, ou você está com ele ou você está contra, ou você é do bem ou você é do mal. Ou seja, o fundamentalista é um estúpido com pouca educação (apesar das aparências), que não é capaz de uma reflexão crítica ou filosófica, que não consegue ver as coisas numa perspectiva histórica, incapaz de supor algo mais profundo que a superfície, que não tem desenvoltura intelectual. Apesar de termos nutrido durante anos a ideia de que num futuro viveríamos num país melhor, é até bastante óbvio agora observar que o nosso nível cultural e intelectual não estava nos levando nessa direção, mas sim na direção da barbárie, do fundamentalismo.

   Uma pessoa se torna fundamentalista por que, como qualquer pessoa do mundo, carece de algo que lhe dê sentido a vida. Porém, ao contrário de muitos que vão buscar esse sentido estudando, indo atrás de conhecimento, da ciência, comparando as diversas perspectivas sobre as coisas, ao contrário daquele que é crítico e auto-crítico e procura ouvir o que os outros tem a dizer, o fundamentalista é conquistado pela emoção. Em algum momento um discurso chegou até ele e tocou o seu coração, um discurso que não foi depois esmiuçado, investigado, comparado, racionalizado, decomposto, desconstruído, nem nada, um discurso que foi aceito por que lhe deu algo que não tinha, uma verdade para lutar, argumentos para dizer, uma meta, um objetivo, um sentido em sua vida. Esses discursos, estrategicamente construídos para serem sedutores, dão ainda ao fundamentalista um sentimento de autoridade, de superioridade, uma arrogância que nasce da sensação de possuir a verdade e de estar trabalhando para que ela prevaleça em benefício de todos - menos daqueles que se oporem ao seu intento sagrado.

   E o sabor dessa revelação é tal, o sentimento de ter agora algo que lhe dê sentido é tão inebriante, que o fundamentalista está cego, programado para agir e reagir de forma estereotipada diante de certos comandos e códigos sociais, tal como um computador, um robô, alguém que está hipnotizado. A sua programação lhe diz que os outros não puderam ainda ver o que ele viu, os outros precisam ser salvos, os outros precisam também conhecer essa verdade absoluta e se juntar a essa causa tão nobre. Porém, a programação mental que o guia faz com que este ao ver que o outro não se rende à sua verdade, à sua "lógica irrefutável", que o outro atrapalha, se impõe, o ignora, ao constatar isso, o fundamentalista passa a ver no outro o inimigo e já não importa mais o que o outro diga, nenhum argumento é melhor ou maior do que a verdade que ele o fundamentalista carrega e do que as ações que está programado a perpetrar só ou junto com o seu grupo fundamentalista reivindicador.

   Os grupos fundamentalistas proliferam e crescem hoje no Brasil como ninhada de baratas, e são isso que os fundamentalistas são um enxame de baratas tontas que se impõe pelo seu número, mas que sós são facilmente esmagados pela lógica e pela coerência, mas estão cegos demais pra se darem conta disso e muito menos para se darem conta do tamanho do prejuízo que o comportamento fundamentalista trás a cultura, história e desenvolvimento do nosso país. Estou torcendo para que o pior não aconteça, torcendo para que algo novo se dê, torcendo por uma boa surpresa, por que infelizmente, com fundamentalistas a inteligência não resolve, a conversa não acontece, a lógica não faz sentido, nem as amizades valem mais, infelizmente, só resta torcer. Talvez rezar.

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Os Americanos

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